Deus não é o autor do Pecado!(Parte III)

5) A profecia de Micaías
Deus decreta e dirige todas as coisas, e usa até mesmo os pecados para atingir os Seus propósitos divinos. Poucas histórias ilustram isso como a morte de Acabe, que foi considerado o pior rei da história de Israel (1 Reis 21:25). Por causa da morte de Nabote, Deus determinou a morte de todos os descendentes masculinos de Acabe (1 Rs 21:21-24).
Um dia, Acabe decidiu guerrear contra os sírios. E vários profetas foram chamados para serem consultados pelo rei. Acabe venceria ou não os sírios? Todos profetizaram vitórias. Mas o profeta Micaías mostrou o que, de fato, estava acontecendo:
Micaías prosseguiu: Ouve, pois, a palavra do SENHOR: Vi o SENHOR assentado no seu trono, e todo o exército do céu estava junto à ele, à sua direita e à sua esquerda; Perguntou o SENHOR: Quem enganará a Acabe, para que suba e caia em Ramote-Gileade? Um dizia desta maneira, e outro, de outra. Então, saiu um espírito, e se apresentou diante do SENHOR, e disse: Eu o enganarei. Perguntou-lhe o SENHOR: Com quê? Respondeu ele: Sairei e serei espírito mentiroso na boca de todos os seus profetas. Disse o SENHOR: tu o enganarás e ainda prevalecerás; sai e faze-o assim. Eis que o SENHOR pôs um espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas e o SENHOR falou o que é mau contra ti. (1 Reis 22:19-23).
Deus se valeu de um pecado (a mentira) e de um espírito mentiroso (provavelmente um demônio) para cumprir o seu decreto, de que Acabe morreria.
Mas, há uma dificuldade aqui que precisamos resolver.

Deus tenta os homens?
De modo algum. Como está escrito:
Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. (Tiago 1:13).
Como também ensina a CFW:
IV. A onipotência, a sabedoria inescrutável e a infinita bondade de Deus, de tal maneira se manifestam na sua providência, que esta se estende até a primeira queda e a todos os outros pecados dos anjos e dos homens, e isto não por uma mera permissão, mas por uma permissão tal que, para os seus próprios e santos desígnios, sábia e poderosamente os limita, e regula e governa em uma múltipla dispensarão mas essa permissão é tal, que a pecaminosidade dessas transgressões procede tão somente da criatura e não de Deus, que, sendo santíssimo e justíssimo, não pode ser o autor do pecado nem pode aprová-lo. 
Ref. Isa. 45:7; Rom. 11:32-34; At. 4:27-28; Sal. 76:10; II Reis 19:28; At.14:16; Gen. 50:20; Isa. 10:12; I João 2:16; Sal. 50:21; Tiago 1:17. (CFW, cap. V, art. IV).
Deus decreta o mal? Sim. Usa o mal para o cumprimento de Seus propósitos? Sim. Mas Ele mesmo vai lá, tentar o pecador de forma direta? Não. Embora Deus decrete o pecado, Ele mesmo não é o Seu autor imediato ou o seu executor.
Mas como conciliar os decretos de Deus com a liberdade humana? A Bíblia não se preocupa em fazer essa conciliação: ela simplesmente afirma os dois lados como sendo verdadeiros e não vê razões para explicar. O bom intérprete não vai tentar criar uma harmonização artificial deste paradoxo: ele vai seguir a Bíblia e afirmar as duas metades. Seguirá o bom conselho de se calar nos assuntos em que a Bíblia também se cala e não se atreverá a negar aquilo que a Palavra de Deus afirma.
E o que podemos afirmar, com certeza, é que nada, absolutamente nada está fora dos decretos de Deus, que governa ativamente a Sua criação. Nem mesmo a nossa liberdade, a nossa livre-agência, é capaz de impedir, anular ou limitar esse governo soberano de Deus.
Soli Deo Gloria!

_________________________
Sobre o autor: Pastor auxiliar da 1ª Igreja Presbiteriana de Águas Claras, afiliada à Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) em Brasília (DF). Jornalista formado pela Universidade de Brasília (UnB) e teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano de Brasília, com diploma validado pelo Centro Universitário Filadélfia (Unifil) em 2008. Especialista em Teologia Urbana (Unifil). Oficial de chancelaria e ex-editor executivo da "Voz do Brasil".

Comentários

  1. "Embora Deus decrete o pecado, Ele mesmo não é o Seu autor imediato ou o seu executor."

    Quando autores como Vincent Cheung se referem a Deus como autor do pecado, é SEMPRE apenas no sentido de agente último desse ato, não no sentido de agente final ou direto, executor do pecado.
    Afinal, a Bíblia ensina que Deus efetua em nós o querer e o realizar; faz uma pessoa andar longe de seus caminhos e endurece seu coração (Is 63.17; Ex 4.21; 7.3-4,13; 8.19; 9.12; 10.1-2,20,27; 11.9-10; 14.4,8,17) para ela não temer a Deus (Is 63.17). Também, Deus é justo (Is 45.21; Dn 4.37; 9.14; 1 Jo 1.9; Sf 3.5); portanto, não há nada que condene Deus agir como autor do pecado.

    'Quem poderá falar e fazer acontecer, se o Senhor não o tiver decretado?' (Lm 3.37)

    Sobre o paradoxo entre soberania divina e liberdade humana, a Bíblia não trata como coisas irreconciliáveis, como se fossem um mistério que foge à lógica, sobre o qual a Bíblia se cala e devemos simplesmente nos resignar como um problema que Deus um dia, quem sabe, nos esclarecerá. Por simples inferência lógica do ensino bíblico aprendemos que a responsabilidade do homem reside na soberania de Deus, em sua autoridade para impor mandamentos sobre nós e exigir sua obediência.

    A Bíblia é clara ao dizer que não existe liberdade humana de Deus (e qualquer outro tipo de liberdade seria irrelevante à presente discussão). Assim, não há que se reconciliar nada, pois não há nada em conflito.

    Abs

    marcelo h.

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